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Cidades Inteligentes: O que precisamos saber para não repetir os erros do passado
A tecnologia está se tornando onipresente na vida das grandes cidades. Mas isso não significa que podemos continuar repetindo os mesmos erros. Entenda os desafios das cidades inteligentes.

Desde o surgimento das primeiras inovações promovidas pela computação, a ideia de uma cidade articulada pela tecnologia tem sido promovida continuamente. Enquanto por um lado as ditas 'cidades inteligentes' foram abundantemente mercantilizadas e conduzidas por empresas do setor de comunicações e tecnologia da informação, por outro temos cidades despreparadas para acompanhar o avanço de aplicativos e redes de dados que se lançam sobre o tecido urbano.

As dinâmicas dos grandes ambientes urbanos estão, ano a ano, sendo engolidos por empresas de tecnologia estrangeiras que pouco entendem da cultura local. E pela observação do passo das inovações tecnológicas, não há qualquer indicio de que isto se dará por outra caminho. Nota-se uma corrida aonde globalização e inovação se entremeiam de modo a tornar-se um componente intrínseco das cidades contemporâneas e futuras.

Dado este contexto, como cidades podem conduzir seu planejamento urbano, suas políticas públicas e readquirir o controle necessário para que tais iniciativas sejam aplicadas nos ambientes urbanos enquanto considerá-se conjuntamente suas vantagens e desvantagens?

Neste artigo buscaremos entender de onde vem a ideia de cidade inteligente e de que modo as intervenções tecnológicas podem ser assimiladas para que atuações pertinentes ao planejamento das cidades e dos espaços urbanos despontem.

Um pouco de história

A primeira vez que o termo 'Smart City' foi empregado foi em 1970, quando Los Angeles, na Califórnia, produziu o que seria o primeiro projeto envolvendo a coleta de dados urbanos. Na ocasião um comitê especial ficou responsável pelo plano que foi chamado "A Cluster Analysis of Los Angeles”, ou Análise dos Conjuntos de Dados de Los Angeles, em tradução direta.

O plano partia da extração de dados variados para uma posterior análise por agrupamentos, e contava com fotografias infravermelhas aéreas, relatórios demográficos por bairro e classificações relacionadas a qualidade das habitações; O objetivo era embasar o direcionamento de recursos para o combate a pobreza. [1]

Isto acontecia após a segunda guerra mundial, num momento aonde uma ascendente fé nas máquinas e no processamento de dados se traduzia, por vezes, no interesse pela análise social assistida pela computação. A guerra fria e grandes doações vindas das esferas federais fomentavam ainda mais este sentimento, produzindo um terreno fértil para tais pesquisas, que encontravam em arquitetos, planejadores urbanos e cientistas sociais o desejo de utilizar tais ferramentas para políticas públicas. [1]

De certo modo o plano foi bem sucedido, visto que conseguiu identificar problemas estruturais da cidade e evidenciou, através das analises, quais eram os bairros que careciam de maior atenção. Três conjuntos de dados, em particular, quando correlacionados - peso de bebês ao nascer, pontuação média em literatura de alunos da sexta série e a idade das habitações - providenciaram um indicador preciso que elucidava por onde se dava o declínio habitacional e as contradições socioeconômicas na cidade.

Foram estes indicadores que permitiram a Los Angeles ser a primeira cidade a receber grandes subsídios para o desenvolvimento comunitário das esferas superiores. Subsídios estes que foram essenciais para expandir os serviços sociais, manter ruas e construir bibliotecas e parques nas áreas de baixa renda.

Mas, no final, o comitê foi vítima de seu próprio sucesso. Os dados coletados provaram ser tão úteis para garantir o dinheiro do subsídio federal que a cidade passou a concentrar as atividades do comitê no desenvolvimento e na administração do subsídio, e as análises passaram a ser realizadas apenas quando justificassem de algum modo estes subsídios.

Além disso, ao invés de usar as pesquisas para orientar as ações da cidade, o comitê é quem foi sendo sugado na direção dos objetivos pré-determinados da cidade, seguindo aquilo que era estabelecido pelos pedidos de financiamento.

Consequentemente, em 1977, este comitê foi transformado em um Departamento de Desenvolvimento Comunitário interno ao gabinete do prefeito, onde a "Divisão de Análise e Planejamento Comunitário" do departamento continuou a emitir relatórios até 1980, quando o termo "análise comunitária" foi então retirado do nome.

Independente de como se deu, o fato é que neste caso a ideia ter se perdido em seu próprio objetivo foi um contratempo para todo o tema, pois a partir daqui a ideia de uma cidade tecnológica foi tomada pelas empresas de comunicação e não mais por entusiastas do ambiente urbano.

Em 2005, por exemplo, o tema das cidades inteligentes ganhou seu primeiro empurrão quando a Cisco, uma multinacional produtora de tecnologias de rede e comunicação, investiu 25 milhões de dólares em pesquisas que promovessem a redução de emissões de carbono por meio de melhorias na eficiência da infraestrutura urbana. [2]

Porém, o termo "cidades inteligentes" fixou-se com mais força em 2008, quando a IBM, outra empresa multinacional americana de tecnologia, criou um concurso estimado em 50 milhões de dólares chamado "Smart Cities Challenge". As cidades selecionadas para participar do programa contariam com especialistas para prestar assistência em questões locais, como sustentabilidade, energia, educação e comunicação - fornecendo estratégias destinadas a "tornar a tecnologia inteligente nas cidades mais prósperas." [sic] [3]

Tais movimentos se refletem no que o urbanista Adam Greenfield chama de "um movimento incomum na história do urbanismo", aonde nunca antes atores comerciais de grande escala - como estas empresas de tecnologia - estiveram tão profundamente envolvidas com a construção de cidades e do processo de planejamento urbano.

Fomentadas por tais iniciativas, o imaginário a respeito das cidades inteligentes foi se juntando ao tecno-otimismo dos anos 2000 e a uma ideia mercadológica de cidades culminou em diversos mega-experimentos urbanos promovidos por empresas do ramo durante o ínicio do século XXI. Dois exemplos dessa experimentação, em especial, culminaram em projetos que reverberam até hoje: Songdo, na Coreia do Sul, e Masdar City, nos Emirados Árabes.

Songdo

[IMG-02] Central Park em Songdo / Jinho Kim

A diretriz de Songdo sempre foi a de ser um pólo de negócios e pesquisa, construído dentro de uma zona de livre comércio e como uma comunidade ambientalmente sustentável que, assim o é, através de tecnologias de informação e comunicação em larga escala. Sua construção teve inicio em 2003 e sua conclusão era estimada para meados de 2020. [4]

Quarenta por cento de todo o espaço da cidade é dedicado a espaços verdes, com parques e amplas calçadas caminháveis. A coleta da água da chuva é feita de maneira automática e posteriormente utilizada na irrigação destes espaços.

O lixo de todos os apartamentos são dispensados através de canos pneumáticos que empurram os resíduos até um centro de gerenciamento da cidade, que é responsável pela reciclagem.

Todos os moradores de Songdo tem, também, acesso a uma rede de serviços que englobam gerenciamento de tráfego, agendamentos médicos, vagas escolares, universitárias, hospitalares, entre outras coisas, tudo acessível a partir de alguns cliques na tela.

Porém, Songdo também desperta muitas críticas (em sua maioria vindas do ocidente). O jornal britânico DailyMail, por exemplo, publicou em 2018 uma reportagem aonde descrevia Songdo como uma "cidade fantasma, tal como Chernobyl". [5]

Em sua maioria, as críticas a Songdo se aglomeram ao redor da baixa população - frequentemente numa comparação direta com Seul, capital do país e de idade milenar - ou também pelo seu baixo atrativo cultural.

Embora tenha sido projetada por uma sequência de escritórios de design internacionais bem renomados, como OMA e KPF, para combinar uma série de modelos urbanos famosos (incluindo os parques de bairro de Savannah, os pitorescos canais de Veneza e o Central Park de Nova York), o resultado é surpreendentemente mundano. Este parece ser um problema para quase todas as cidades inteligentes planejadas contemporâneas. Embora forneçam serviços públicos confiáveis, os ambientes construídos que criam são quase universalmente sufocantes e genéricos. A maioria das imagens de Songdo parecem ter sido tiradas em qualquer outro lugar do mundo. É uma cidade de torres de vidro familiares, estradas largas, franquias corporativas e calçadas limpas e anônimas. - Rachel Keeton [6]

Talvez o maior erro de Songdo venha justamente da reiteração dos mesmos erros de planejamentos urbanos modernos - tal como Brasília. Planejamentos estes que impõe uma lógica de "pacote" - aonde uma racionalização generalista impõe um estilo de vida artificial e excessivamente planejado sobre os moradores.

Ainda, é presumível que planejar tudo a partir da lógica do capital e dos interesses de investidores seja um caminho direto para problemas sociais. Em Songdo isto parece se converter em um processo subentendido de rotulagem aonde seus moradores são colocados dentro de esferas de valor, moldando toda uma cidade de maneira artificial para competir numa economia global de conhecimento e moral. [4]

Talvez o exemplo mais evidente disto esteja na maneira como a cidade afastou os antigos moradores da região, que consistia em sua maioria de pequenos pescadores, enquanto seus novos residentes foram atraídos por razão de empresas e escritórios implantados na cidade. Escritórios estes que incluem, principalmente, companhias que trabalham com biomedicina, indústrias de alta tecnologia, logística, finanças e comércio internacional, ou seja, empresas capazes de competir em uma lógica de mercado globalizado.

Contudo, dizer que Songdo é um fracasso total e completo, chegando a tecer comparações com Chernobyl, culpando apenas a tecnologia e o planejamento genérico e "sem alma" é algo tão enviesado quanto as cartilhas de marketing dos investidores de Songdo.

Não há duvidas que torres de vidro e a desapropriação predatória e excludente são problemas latentes, e que o desenvolvimento de um espaço urbano sem identidade é algo que merece críticas. No entanto isso não é uma característica presente em muitas das cidades contemporâneas, com ou sem tecnologia?

Cidades não são construídas do dia para a noite, porém Songdo parece ser um local digno de observação tanto para críticas quanto para inspiração. A velocidade com que uma cidade deste porte foi desenvolvida, com as qualidades técnicas e ecológicas que tem, é no mínimo surpreendente.

Quem sabe se, algo semelhante conseguisse ser desenvolvido, considerando também os aspectos culturais e de inclusão social, um grande passo seria dado para que estivéssemos mais próximos de encontrar uma solução para a crise habitacional que avança sobre todos os continentes.

Quanto aos louros e os fracassos de se criar uma cidade com esse tipo de planejamento, parece que só o futuro poderá dizer com precisão. Mas pelo erro ou pelo acerto, Songdo promete ser um empreendimento urbano que influenciará muito do que veremos daqui pra frente em questão de planejamento urbano.

Masdar City

[IMG-06] Masdar City: uma excelente oportunidade para o teste de novas tecnologias e tipologias, mas estaria esta apta a se desenvolver numa cidade?

Quando falamos de oriente médio é imediato pensar em cidades de clima árido assentadas sob uma economia de extração e venda de combustíveis fosseis. No caso dos Emirados Árabes, este caso ainda é verdade, visto que o núcleo central de sua economia ainda depende destes produtos para se manter.

Porém, ao observar as tendencias de sustentabilidade e a guinada rumo a novas fontes de energia aos quais o mundo se direciona, os Emirados Árabes tem buscado meios de diversificar sua economia, se reinventando através de novos modelos de produção energética - agora sustentáveis.

É neste clima que surgiu em 2006 a iniciativa para o que seria "a cidade do futuro": Masdar City. O plano todo para a cidade foi desenvolvido a partir de diretrizes que visavam manter a cidade unicamente através de energias renováveis e com uma execução que garantia emissão zero de carbono, tudo em nome de ser "um modelo na adoção comercial de tecnologias limpas".

Uma vez firmada a iniciativa publico-privada (com maior parte dos direitos ficando sob controle do governo de Abu Dhabi) o renomado escritório de arquitetura Foster + Partners foi convidado para desenvolver o masterplan que seria o ponta pé inicial da iniciativa.

Porém, 10 anos após o início da construção - e 22 bilhões de dólares - a maior parte de Masdar permanece vazia e cercada por muita areia. [7]

[IMG-07] Ruas vazias e muita Areia / Etienne Malapert

Segundo o plano original do escritório londrino (que é de 2007), após uma década Masdar estaria preparada para abrigar 50 mil habitantes, porém as estimativas mais otimistas declaram um número que não passava dos 3 mil em 2020. Desconsiderando viajantes e trabalhadores temporários restam apenas uma média de 300 moradores, que são os estudantes da Khalifa University of Science and Technology.

Pior, com a crise do petróleo entre 2014 e 2016 os investimentos na cidade foram minguando, e os responsáveis pelo projeto passaram a se referir a Masdar, envergonhadamente, não mais como uma cidade que pretende ser exemplo através de emissão zero de carbono, mas como uma cidade de baixo carbono. Para muito dos investidores que viram suas expectativas de lucro arrefecer, isto seria o suficiente. [8]

Quando o assunto é tecnologia o mais notável de Masdar é seu campo de energia solar e as pesquisas sobre transporte que vem sendo desenvolvidas na cidade. Desde 2009 testes de carros autônomos com emissão zero de carbono acontecem no local.

[IMG-08] Painéis solares de Masdar City. / Etienne Malapert

Porém, em se tratando de inovação aplicada a cidades inteligentes, Masdar parece não ter tanto para impressionar além da presença de múltiplos institutos e empresas ligadas a tecnologia.

Em questão de planejamento urbano, Masdar conta de fato com um microclima mais agradável, numa comparação direta com as cidades dos arredores. Isto ocorre por conta de suas ruas serem mais estreitas e os prédios projetarem, assim, um sombreamento sobre boa parte dos calçamentos, além de "torres de ar" posicionadas estrategicamente favorecerem a criação de correntes de ventilação à nível do pedestre.

[IMG-09] Torres de vento levam ventilação a nível do pedestre / Dariusz Stasik

Ar-condicionado e tecnologias nos deixaram preguiçosos. Você faz o mesmo prédio em Abu Dhabi, Munique... Tomamos inspiração de pessoas que vivem em lugares quentes há milhares de anos. Aqui a arquitetura vem antes da tecnologia. -Steve Severance, chefe de gerenciamento de programa e marketing da Masdar. [9]

No entanto, estas são "tecnologias" vernaculares. São técnicas que vem de outros tempos e de outros locais, as vezes de milênios atrás. Tem seus méritos obviamente, principalmente em se tratando de uma cidade com um clima tão quente e no meio do deserto. Mas não representam de modo objetivo nenhuma inovação do ponto de vista das cidades inteligentes divulgadas no sentido de promover "disrupções tecnológicas".

É felicitado que, em uma nação tão dependente da exploração de combustíveis fosseis, tenha havido o interesse por pesquisar e produzir o que seria uma cidade inteira destinada a renovação do pensamento econômico e cientifico local. Porém, é necessário reconhecer que até o momento Masdar City está muito mais próximo de ser uma feira de exposições do que uma cidade per si.

Tal como em Songdo, quem observar verá em Masdar City exemplos positivos e negativos. E há aqui um padrão também: a maioria das criticas de Masdar City parecem se concentrar no posicionamento mercadológico, a respeito desta se posicionar como uma cidade inteligente, e não pelas questões técnicas e sociais de seu empreendimento.

No entanto as principais falhas de Masdar também são antecessoras até as questões tecnológicas, repetindo inclusive lógicas modernas de implantação em "pacote" - aonde uma ideia generalista se sobrepõe as complexidades que produzir uma cidade possui. Logo é na falta de inclusão, acessibilidade, do pluralismo de ideias e da fomentação dos aspectos culturais que surgem os principais problemas de Masdar.

O que torna uma cidade Inteligente?

Basta uma rápida busca na internet para se topar com as mais diferentes definições para o que seria uma dita 'Smart City'. Muito a depender da fonte, as respostas costumam variar entre os extremos: ou é uma cidade ultra-eficiente aonde a tecnologia é vista como recurso prestigioso, ou é um erro discricionário fundamentado pelas bravatas do capital.

No entanto, para além do tecno-otimismo dos anos 2000 e do marketing promovido por empresas de comunicação e tecnologia, a ideia aqui não é creditar a tecnologia característica benéficas ou maléficas. Há de se observar ainda, o que é um problema derivado da tecnologia e o que é simplesmente a repetição dos mesmos problemas de planejamento urbano que vem sendo repetidos por décadas.

Até por conta disto, precisamos primeiramente definir o que não é uma cidade inteligente. Diferentemente do que os exemplos acima sugeriram, uma cidade inteligente não é um empreendimento feito do zero. Até o poderia ser, mas como já vimos repetidas vezes, planejar uma cidade e dar inicio ao seu processo de maturação é uma das coisas mais difíceis que há.

Um segundo ponto importante é distinguir que uma cidade não é somente a sua infraestrutura; Mas uma cidade é também sua infraestrutura. Neste sentido, o que torna uma cidade inteligente não é necessariamente a sua tecnologia, mas o emprego ao qual se dá a esta tecnologia. Quem são os beneficiários? Quem pode estar sendo excluído? Quem paga por estes recursos? E a quem pertence os dados necessários para operar supostas redes de dados.

Qualquer cidade pode se tornar "inteligente" ao implementar, em seus processos de manutenção e no cotidiano de seus habitantes, práticas que, através dos processos tecnológicos e digitais, simplificam e fomentam um estilo de vida mais "inteligente".

No entanto, o "inteligente" virá sempre dentro de parenteses quando os interesses por detrás dos patronos da implementação desta dita inteligencia não estiverem também expostos e compreendidos. A tecnologia, em si, não tem propósito ou vontade. Ela é uma ação, uma execução. Assim, a inteligencia irá variar sempre de discurso para discurso no contexto de apresentação de cada cidade dita "inteligente".

Tópicos distintos como eficiência, sustentabilidade, acessibilidade, inclusão, crescimento econômico, e tantos mais podem ser incluídos ou não dentro deste conceito de "inteligência". Cabe a quem planeja, e principalmente a quem desenvolve e financia estes algoritmos, enquanto armazena e manipula os dados, dizer para onde essa inteligência se projeta.

Há no entanto algumas propostas de definição para as ditas cidades inteligentes que podem direcionar o tema rumo a um conceito mais produtivo, falando de uma perspectiva de planejamento urbano. Estas geralmente partem dos objetivos desta inteligência para unificar uma interpretação mais clara e objetiva a todos os envolvidos. Amsterdã, por exemplo, utilizou as seguintes palavras para estabelecer o conceito de cidade inteligente em seu plano:

Uma cidade pode ser definida como “inteligente” quando os investimentos em capital humano e social e em infraestrutura de comunicação tradicional e moderna fomentam o desenvolvimento econômico sustentável e uma alta qualidade de vida, com uma gestão sábia dos recursos naturais, por meio de uma governança participativa.
[10]

Esta é uma definição relevante pois disputa com a ideia tecno-individualista de cidade inteligente que vem sendo vendida até aqui. Utilizar a tecnologia para resolver as partes práticas e lucrativas é a parte mais fácil - poderíamos até notar que não há como impedir que isto se dê num sistema alicerçado pelo crescimento econômico - no entanto, esta pode e deverá também ser utilizada na resolução de questões comunitárias e que não estão diretamente ligadas a percepção de lucro.

O desenvolvimento de cidades que desperdiçam menos, gerenciam melhor suas redes de energia e o tráfego urbano, fomentam práticas sustentáveis e contribuem de alguma maneira para estilos de vida mais harmônicos é, sem dúvida, algo relevante e promissor.

Porém, tais tecnologias e esta "inteligência" deve também ser empregadas na resolução de problemas latentes e mais espinhosos presentes nos ambientes urbanos contemporâneos como a pobreza, a universalização do saneamento básico, a coesão entre bairros e classes sociais e a inclusão pública nos processos de decisão. Temas estes que o capital geralmente não se envolve.

Conjuntamente, debates a respeito da cyber-segurança, da privadade e do poder de controle e manipulação de dados são de igual de importância, não podem ser deixados em segundo plano. A tecnologia, sem dúvida, traz grandes vantagens para a promoção da eficiência das cidades, mas elas também trazem novos questionamentos que se somam aos problemas existentes.

E para muitas destas questões ainda não existem direções claras, a vista de que pela velocidade das inovações é frequente a necessidade de se compreender e solucionar ao mesmo passo que se implementa. O caminho não é nítido, mas demanda discussões. Para isto o debate entre a relação tecnologia e cidadão, redes e dados, transparência e privacidade precisam existir de forma multidisciplinar. Para as cidades do futuro, não bastará uma "infraestrutura inteligente", a "cidade inteligente" precisará também de "habitantes inteligentes".

O habitante inteligente

Um dos maiores desafios ao lidar com o tema das cidades inteligentes está em como fomentar e implementar supostas novas tecnologias projetadas de modo a incluir os habitantes às tomadas de decisões a respeito do tecido social e urbano ao invés de aliena-los ainda mais.

E, ao ressaltar que a tecnologia, em si, não tem vontade ou propósito, identificamos que apesar desta ser uma força poderosa, cabe a nós dar a ela seu vetor e direção.

Embora notório o potencial que a tecnologia tenha para transformar cidades, principalmente no discurso da eficiência, há de se garantir sempre que a dimensão humana não se perca neste processo.  

Logo, cidades inteligentes precisam ser avaliadas de maneira holística, isto significa que a magnitude do seu impacto é maior do que a simples soma de suas partes.

O fato é que mesmo um programador bem intencionado pode cometer um erro devastador visto que, o planejamento de uma tecnologia e seus reflexos, requer a visão de perspectivas diversas.

O maior desafio das cidades inteligentes vem de não se perder de vista as interações humanas conforme avançamos na direção da singularidade tecnológica. Para isto é necessário que aqueles que batalham diariamente pelo espaço urbano se interessem também pela digitalização e seus efeitos derivados.

É fácil imaginar como a implementação tecnológica pode culminar numa distopia Orwelliana. Porém requer interdisciplinaridade e interesse por parte de profissionais, que não só programadores e cientistas de dados, à respeito dos processos algorítmicos, para que o avanço tecnológico se mantenha no caminho da inclusão, havendo sempre o ser humano e o mundo natural como centro do seu ordenamento.

Profissionais do planejamento urbano, da saúde, da segurança, do tráfego urbano, políticos, ativistas e tantos mais agentes do processo de elaboração do meio urbano precisam estar atentos ao fato de que a tecnologia se dará cada vez mais como um agente poderoso na formação das grandes cidades e seu cotidiano, e trabalhar com esta não será mais uma questão de opção - renegá-la poderá ser a pior decisão.

"Quando bem feitas, as tecnologias de cidades inteligentes podem fornecer uma plataforma para um diálogo bidirecional entre o cidadão e a cidade, e os arquitetos estão numa posição única para demonstrar como isso pode funcionar na prática em uma escala limitada. Um design só têm sucesso na medida em que as pessoas o usam e o apreciam. Na era da cidade inteligente, os arquitetos têm a obrigação de moldar essa ética para todos os que constroem cidades." - Hans Neubert [11]

A medida que nossos edifícios se tornam parte inerente da Internet-das-coisas e cada passo dado na cidade é coletado por sensores diversos e armazenados em bancos-de-dados globais, torna-se fundamental também a compreensão de que a transformação da cidade passa a estar sob o controle destas tecnologias e daqueles que as desenvolvem.

Como consequência, cada habitante da cidade inteligente precisa saber que pode atuar também na construção destes ambientes digitais e urbanos, assim evitando ao máximo um processo de alienação, aonde os habitantes são colocados unicamente numa posição passiva e apenas tem seus dados coletados e seus hábitos direcionados.

Nesta lógica, uma cidade se torna inteligente não apenas pela inclusão da análise e do processamento de dados em sua gerência, mas também por que estas tecnologias são utilizadas de modo a fomentar a transparência, a participação e a co-decisão, desenvolvendo por fim um modelo de governança confiável e envolvente. [12]

Em estágio embrionário esta é uma ideia que já se propaga com alguns bons exemplos pelo mundo, através de iniciativas que se valem da tecnologia para ampliar a acessibilidade e a transparência dos processos de participação pública.

Em 2015, por exemplo, o senado da cidade de Hamburgo, na Alemanha, aprovou um documento intitulado “Digitale Stadt” (Cidade Digital). O texto advoga que o poder público deve “estabelecer um clima de inovação que permita aos cidadãos acessar os dados públicos e apoiar empresas e instituições através da internet”, bem como “alcançar uma melhor qualidade de vida”.

Na prática o documento institui uma abordagem de baixo para cima. Ao invés de simplesmente impor decisões aos habitantes, estes ganham maior autonomia e autoridade, permitindo que se envolvam ativamente nos processos de tomada de decisão. Isto significa que caso estes afirmem que “se Hamburgo enviar uma lista de múltipla escolha no meu dispositivo móvel, então estou disposto a responder”, Hamburgo é então obrigada a servir-lhes listas de múltipla escolha para assim aumentar sua participação. [13]

De igual importância, fez-se uma plataforma online, denominada “Transparenzportal” (portal da transparência), aonde ficou disponibilizado ao público o acesso a diversos dados relativos a governança local.

Em Berlim, o escritório de inovação Form Follows You, em cooperação com a incorporadora habitacional estatal Berlin Mitte (WBM), desenvolveu um aplicativo que visa promover meios de negociação e discussão mais inclusiva entre incorporadoras, empreiteiras, o governo e os habitantes.

O aplicativo tem como base quatro pilares: a disponibilização ampla de dados, a consulta pública, a cocriação e a decisão conjunta entre todas as partes. Deste modo, o instrumento busca abranger um leque de funções que fornece a todas as partes envolvidas meios de serem ouvidas e participarem no processo de decisão de cada projeto. [14]

Outra vantagem da ferramenta está no modo como esta torna compreensível os dados que são utilizados pelos principais atores envolvidos (como arquitetos, paisagistas e as empresas), tornando a informação acessível mesmo para pessoas que não tem conhecimento especializado nestas áreas, democratizando assim o conhecimento do processo pelo qual são feitas as decisões.

Os dados ainda são complementados com modelos em escala real que consideram todo o contexto regional. Geodados urbanos baseados em informações fornecidas pela FIS Broker  - o sistema de informações geográficas do Estado de Berlim - podem ser importados para ampliar a comparação de dados dentro do aplicativo (como a relação entre a posição de árvores e da infraestruturas existente com o projeto).

Perguntas como: “Qual é a distância da escola mais próxima?”, “Qual a densidade estrutural proposta?” Ou “Onde ficam as áreas verdes e de lazer ao redor?”, também são possíveis de se mapear e apresentar.

Inclusive há um grande potencial de que, com o progressivo acumulo de dados e o entrelaçamento entre eles, façam-se evidente novas demandas locais e regionais, dando aos habitantes meios pelo qual debater de maneira informada sobre todos os aspectos de maneira abrangente.

[IMG-12] Como garantir que todos tenham o direito de participar na formação das cidades? / Form Follows You

Tais ferramentas são fundamentais, visto que diversos pesquisadores do campo social já argumentam que formas de participação, como audiências públicas que se dão única e exclusivamente no campo presencial e com hora marcada, limitam a capilaridade dessas ações e dificultam o processo de participação, fazendo com que muitas ideias não sejam se quer apresentadas. [13]

Em contra-partida, os mesmos dados sugerem que a implantação de ferramentas já conhecidas como fóruns online, grupos de redes sociais e até mesmo simuladores como o 'Second Life' podem atuar como plataformas capazes de atrair maior participação e engajamento. [15]

Hub2: um projeto piloto com o objetivo de envolver os residentes da cidade no planejamento de um parque público usando o simulador Second Life. Os participantes tiveram a oportunidade de explorar o espaço proposto a partir de múltiplas perspectivas. Eles também puderam oferecer feedback sobre o design para os planejadores e desenvolvedores envolvidos no projeto.

Neste caso, ainda que não existam exemplos concretos aonde isto tenha se dado de maneira oficial por qualquer entidade governamental, com resultados práticos, é positivo o olhar para com tais ferramentas e a possibilidade que elas trazem para a discussão do espaço urbano.

A maior dificuldade vem justamente do fato de que estas são novas tecnologias e ainda precisamos aprender a lidar com elas, sobretudo no intuito de democratizar seu acesso.

Mas, conforme o acesso a internet se torna universal e ferramentas do tipo são democratizadas, faz-se também possível a utilização de métodos de participação pública digitalmente inclusivos, imersivos e cativantes.

Para as gerações mais novas isso evidencia-se inclusive através de games, como Minecraft e outros simuladores de estilo 'sandbox', que carregam no seu âmago o principio de "construir e desenvolver" em conjunto. Embora lúdico este pode ser a base de todo um processo que transborda o ambiente dos jogos e deságua em ferramentas reais de discussão com real capacidade de transformação dos espaços físicos.

Mas para além das questões de participação nas decisões de implantação e governança, há também outra forma de participação fundamental: aquela que se dá sobre o cotidiano.

Como a tecnologia terá ainda papel marcante nos processos de manutenção corriqueiros, a capacidade de alterar e adaptar decisões algorítmicas, ao gosto da hora de cada cidadão, é algo que enriquece as possibilidades de participação na cidade.

Para Carlo Ratti, professor de planejamento urbano do MIT e autor do livro "The City of Tomorrow: Sensors, Networks, Hackers, and the Future of Urban Life", a ideia de cidades inteligentes está atrelada a processos que, além de colocar as pessoas como núcleo das decisões, também as permitem interagir diretamente e frequentemente com estas tecnologias. [16]

"Cidades Sensíveis", como ele se refere, é a ideia de que a optimização não deve ser sinônimo de computação em escala de nível metropolitano, nem um "velho-oeste" de bits e átomos: e sim de uma interação entre interfaces e habitantes. Neste conceito a ideia de eficiência pela eficiência, com um propósito puramente objetivo, é algo que se torna rapidamente obsoleto.

Segundo ele, o poder de transformar a cidade através de algoritmos precisa estar nas mãos do cidadão comum, e não só dentro de empresas e organizações. Assim, os habitantes poderiam inclusive "hackear" suas cidades, modificando criativamente os processos urbanos para atender ocasionalmente aos seus desejos.

Da mesma forma que softwares abertos - como o sistema operacional Linux - cresceram exponencialmente através do desenvolvimento de códigos abertos (open source), a engenharia de um processamento urbano pode se beneficiar das faíscas da serendipidade. E assim como pessoas comuns hackearam software, "desenvolvedores cidadãos" podem começar a hackear sua cidade. - Carlo Ratti

Hackear a cidade, neste contexto, não passa por uma quantidade extensa e complicada de comandos num terminal de computador, nem por um estereotipo malicioso. Com a chegada de novos dispositivos, como relógios que medem nossa pressão arterial e carros que reconhecem o entorno e seus objetos, este hackeamento passa a estar a alguns cliques de distância.

Particularmente, o hackeamento a que Ratti se refere se dá no aspecto da autonomia, astucia e exploração. Uma modificação que aconteceria de forma livre e experimental. Um caos organizado que apesar de tudo, fomentaria formas de utilizar a cidade de novas maneiras criativas e confiada aos habitantes.

Consequentemente, para Ratti, isto sugere também uma forma de arquitetura que se assemelha a organismos vivos, aonde os processos tecnológicos dão dinamismo e acionam possibilidades de exploração e uso com maior flexibilidade e adaptação.

Alicerçadas em sistemas de comunicação e aprendizagem, as redes de sensores podem transformar edifícios em agentes inteligentes com capacidade de aprender e coexistir com seus ocupantes. O sonho de espaços dinâmicos pode finalmente ser realizado à medida que os edifícios unem humanos, ambiente, infraestrutura e dispositivos pessoais.
Assim como as redes de mobilidade estão se beneficiando de sensores onipresentes (como acontece com mapas de crowdsourcing ou detecção de buracos), os edifícios também podem aprender com os fluxos humanos que passam por eles. Vamos mudar de morar em uma casa para morar com uma casa. A arquitetura passa a ser uma forma de interface, desempenhando um papel ativo no ambiente humano, tanto digital quanto físico.

De qualquer maneira que isto se dê, é imprescindível o juízo de que para uma cidade fazer-se inteligente, esta terá que se alicerçar na difusão de novas ferramentas pautadas por qualidades como acessibilidade, participação, transparência e co-decisão.

Infraestrutura Inteligente

Ao passo que caminhamos para uma internet-das-coisas cada vez mais interligada e consequentemente para um processo de singularidade tecnológica, as cidades adentram um fenômeno aonde estas assemelham-se a computadores, com diferentes cálculos e decisões sendo tomadas num campo virtual invisível.

No inicio do século vinte, Le Corbusier já usava o termo "máquinas para se viver dentro" se referindo ao modo como a arquitetura e o design caminhavam ao passo de se tornarem progressivamente mais eficientes em suas funções pragmáticas.

Com a ubiquidade dos aparelhos e dos sistemas digitais, o que se observa é como também as cidades estão se tornando um grande aglomerado de sistemas capazes de impactar diretamente no modo como navegamos, nos comunicamos e socializamos.

Não obstante, o termo "computação ubíqua" foi definido por Mark Weiser, um engenheiro da Xerox PARC, quando este imaginou, já em 1988, que as telas em algum momento desapareceriam e veríamos um gradativo amalgama entre os meios digitais e o mundo físico.

Segundo ele, este era "um novo modo de pensar a computação, que levava em consideração também o ambiente humano, permitindo aos computadores desaparecer para o pano de fundo" tornando-se "eles próprios parte do tecido da vida cotidiana até que sejam indistinguíveis dela". [17]

Neste contexto, debater a infraestrutura que compõe a cidade torna-se indispensável para compreender não apenas o modo pelo qual estas tecnologias operam - e consequentemente fomentarmos decisões que contribuam para a qualidade de vida dos habitantes - mas também para que se levantem novos questionamentos que vão se provar fundamentais, como a quem pertence e quem pode acessar os múltiplos dados coletados e armazenados por sensores e máquinas distribuídas no espaço urbano.

E não é necessário irmos para um futuro distante para começarmos este debate. Por conta da difusão de smartphones e outros dispositivos móveis, este processo de entrelaçamento da cidade com o meio digital operando de fundo já é uma realidade.

Aplicativos como Waze, Google maps, Facebook e tantos outros, através da informação que nós mesmos fornecemos para o seu funcionamento, adquirem conhecimentos únicos sobre o funcionamento de cidades do mundo todo.

Hoje, todo cidadão já é de certo modo um ciborgue, meio humano e meio máquina, que ativamente coleta dados variados e os fornece de combustível para que empresas e interesses privados se debrucem sobre as camadas materiais e sociais da cidade e sejam capazes de ditar muito sobre a cultura e o uso do espaço.

Isto pois de maneira geral os fluxos de informação seguem três etapas: primeiramente, uma gama de sensores coleta informações sobre o ambiente e seu movimento (humano e material). Em seguida, algoritmos processam e agrupam essa quantidade massiva de dados, encontrando padrões e produzindo uma base para previsões futuras. Por fim, estes dados uma vez processados, se tornam informação, que pode ser utilizada para alterar a operação dos mesmos dispositivos e algoritmos de maneira aprimorada ou embasar decisões de interesses distintos.

[IMG-13] Dados > Informação > Conhecimento > Compreensão > Sabedoria > Impacto / Gapingvoid

Como a tecnologia não tem vontade, o resultado deste processo é humano. Somos nós, como sociedade pública e privada, que permitimos que o que quer que resulte deste processo seja em prol da qualidade de vida ou simplesmente da exploração de recursos - e captar, armazenar e processar informação está se tornando um recurso valioso, o "novo petróleo". [18]

Logo, debater a cidade é, agora, também debater como estes processos operam. Por exemplo, um algoritmo que gere o tráfego de carros autônomos pode ser optimizado de distintas maneiras: ele poderia ser colocado para maximizar o fluxo urbano, para fomentar o compartilhamento de veículos, ou mesmo para priorizar caminhos que sejam mais belos e cativantes ao viajante.

[IMG-14] Como será o trafego urbano das grandes cidades quando veículos autônomos adentrarem o duelo do espaço viário? / Jens Kalaene

Dado a velocidade e o arrebatamento destas tecnologias, aguardar sua implantação para iniciar o debate e as modificações necessárias é um erro.  Principalmente em cidades de países em desenvolvimento, discutir antecipadamente é primordial para que novos problemas não se multipliquem aos já existentes. Para citar um ditado: há de se trocar a roda com o carro andando.

Talvez haja nisto também uma nova janela de oportunidades. Por exemplo, na implementação de automóveis autônomos haverá a oportunidade de se repensar toda a relação entre os meios privados de locomoção com os outros modais - como bicicletas e o transporte público.

A prova de que não podemos esperar para ver o que acontecerá já se demonstra pela disputa de empresas privadas pelo monopólio destas operações.

Há o lobby de empresas como Ubber e Lyft que anunciam a ideia de cidades com menos estacionamentos e com maior compartilhamento de veículos particulares, o que até pode ser real, e seria ótimo, mas que não dependerá somente destas para ocorrer.

Como toda cautela é bem vinda, há de se manter em vista também previsões que apontam para a possibilidade de que, se estes serviços tomarem o espaço do transporte público, o que se verá na verdade é mais transito e poluição.

A NACTO (National Association of City Transportation Officials), por exemplo, publicou recentemente um guia detalhado de 131 páginas com recomendações que estão sendo adotadas pelas cidades mais influentes dos Estados Unidos, considerando a ideia de que, ainda que ninguém tenha certeza de quando esta tecnologia chegará, o tempo de se preparar e planejar para ela é agora. [19]

O guia explicita por exemplo como, mesmo numa situação aonde a implantação se dê de maneira bem sucedida e contribua para o trafego da cidade, estas empresas ainda poderiam coletar diversas informações sobre os indivíduos e suas viagens - assim como já fazem as empresas de patinetes elétricos - e decidir o que fazer com isto.

Diferentemente do que acontece com o transporte público, estas empresas não tem obrigação de compartilhar estes dados nem precisam "garantir a segurança nas vias públicas e gerenciar e regular os serviços de transporte para melhor atender aos objetivos públicos", como sustentabilidade e equidade.

O resultado numa situação como esta não é a de uma cidade inteligente, mas sim de uma cidade que usa tecnologia mas restringe ainda mais aos seus habitantes o poder de mudar e controlar o que acontece no seu entorno.

Em seu artigo "As cidades inteligentes estão condenadas a promover a desigualdade?", Alexandros Washburn argumenta que, embora as tecnologias acopladas a ideia de cidade inteligente possuam uma capacidade real de inovação e eficiência, no fim, há um limite para o quanto de melhora substancial estas podem prover. [20]

Washburn traça comparações, por exemplo, entre os câmbios financeiros e a ideia de semáforos inteligentes: quando algoritmos começaram a ser utilizados para a compra e venda de ações, havia uma vantagem pois estes conseguiam tomar decisões embasadas e agir em segundos, muito mais rápido do que o melhor investidor de Wall Street conseguiria.

Mas a medida que mais e mais algoritmos foram assumindo esta tarefa a vantagem foi minguando. Em suma, escolher os algoritmos mais eficientes para se trabalhar com estes ativos tornou-se indispensável, no entanto, não há nenhum beneficio real sendo gerado, este se tornou um jogo de soma zero novamente, com os mesmos ganhadores e perdedores.

No caso dos semáforos inteligentes algo similar poderá ocorrer e isto já é evidente com a tecnologia que utilizamos atualmente. Quando aplicativos como Waze e Google Maps surgiram sua vantagem era bastante clara, pois estes - através da comparação de dados em tempo real - selecionavam o melhor trajeto entre o ponto A e o ponto B de uma cidade em dado momento. Isto gerou uma situação aonde aqueles que utilizavam o app obtinham uma vantagem em relação aos que não usavam.

Logo, não utilizar tais aplicativos se tornou impraticável. Mesmo o motorista mais habilidoso e com o mapa da cidade em sua cabeça passou a utilizar estas ferramentas, pois não utilizá-las se tornou sinônimo de ineficiência. No entanto, no fim não há mais nenhum benefício sendo gerado. Existe um limite para o quanto a infraestrutura de uma cidade consegue ser optimizada: um semáforo pode decidir através de cálculos os melhores momentos para abrir cada via, mas ele ainda pode abrir apenas uma via por vez.

O risco por de trás de todas estas tecnologias é culminar numa cidade aonde tudo é decidido por máquinas, mas que ainda assim possui ganhadores e perdedores - numa versão ainda mais desigual, visto que quem possui dinheiro pode sempre se lançar sobre os mais eficientes aplicativos e algoritmos. Tudo isto, advoga Washburn, é péssimo para a coesão social de uma cidade.

Tenho a sensação de que a cidade inteligente se baseia em uma mentira, em um erro de gramática, em uma confusão de pronomes. Ao falar sobre as maravilhas esperançosas da inteligência da "nossa cidade", realmente queremos dizer "minha cidade". Confundimos o coletivo com o pessoal.

Mas não precisa ser assim. Washburn acredita que podemos implementar tais infraestruturas inteligentes a partir de decisões coletivas informadas, aonde para além da eficiência, há também um debate conjunto sobre o modo como estes algoritmos conjuntos devem operar suas decisões. Citando Janes Jacob, ele acrescenta: “As cidades têm a capacidade de fornecer algo para todos, apenas porque, e somente quando, são criadas por todos".

Cidades inteligentes tomam decisões melhores. Mas as cidades que são inteligentes e democráticas tomam as melhores decisões, permitindo que os cidadãos debatam vigorosamente o curso de ação correto e, em seguida, deixam a tecnologia fazer isso da melhor maneira.

Começar por iniciativas pequenas pode ser uma forma de descobrir o melhor jeito de empregar estas novas ideias, sugere John Harlow, um especialista em pesquisa de cidades inteligentes no The Emerson College Engagement Lab. Ele aconselha que, com intervenções semelhantes à acupuntura, busque-se pelos principais problemas locais seguindo-se de experiências com a tecnologia. [21]

Através de uma fase piloto, diferentes tecnologias podem ser experimentadas, monitoradas e alteradas de acordo com resultados tangíveis, evidenciando-se as soluções possíveis e satisfatórias. Além disso, ao criar esse período de testes, o feedback da comunidade pode ser coletado. As pessoas podem se familiarizar com as novas ferramentas e apresentar suas ideias, melhorando, eventualmente, seu desempenho.

O próprio Facebook, gigantesca rede social hoje, nasceu de uma ideia projetada para e limitada ao campus universitario de Harvard. Era apenas uma ideia embrionaria quando surgiu, pautado no compartilhamento de opiniões e fotografias entre os alunos. Foi a partir da adesão social e do aprimoramento da ferramenta que este veio a se tornar o que é hoje.

As cidades inteligentes e a infraestrutura destas também podem se beneficiar de iniciativas semelhantes, aonde a partir de processos de baixo para cima, os habitantes se sintam imbuidos da possibilidade de determinar o curso destas tecnologias, fomentando assim uma inteligencia real gerada pelas e para as pessoas.

Um dos principais benefícios da tecnologia, não podemos negar, é a possibilidade de incluir mais pessoas no processo participativo. Negar os problemas existentes e futuros de uma cidade e não incluir a comunidade no processo de decisão, portanto, é um problema que não poderá continuar durante a implementação das novas tecnologias ditas "inteligentes", ao custo de gerarmos, no sentido oposto, cidades "eficientemente" estúpidas.

Conclusão

"Para cumprir essa agenda de forma eficaz, devemos estender as definições de arquitetura e design urbano para abranger tanto os lugares virtuais quanto os físicos, tanto o software quanto o hardware." - William Mitchell

Para além de neologismos, o fenômeno das cidades inteligentes apresenta um real e extenso panorama de possibilidades e desafios. A tecnologia e o seu modo de implementação demandam a atenção de todos os interessados pelo planejamento e gerencimento de cidades.

Faz-se indispensável a participação de atores interdisciplinares, colaborando através do debate e discussão destas ferramentas, incluindo-se também nos processos de desenvolvimento e implementação quando possível.

A verdadeira cidade inteligente demandará novas formas de governança acessíveis e transparente, com políticas aptas a promover colaboração e estimular soluções destinadas a qualidade de vida dos habitantes - e não só do crescimento econômico.

É necessário ainda o juízo sobre as limitações da tecnologia que, embora importante neste momento, ainda assim possui insuficiências que demandam medidas de balançeamento e delegações governamentais para que não se abandone propriedades essenciais às cidades, como a memória, a história, a ética, ao direito de espécies que também vivem no meio urbano, dos processos subjetivos e psicológicos, etc. [22]

Em conjunto há o preparo pragmático que estas requerem. Cyber-segurança, exposição de dados e super-vigilância são apenas algumas das diversas disfunções que vão emergir do processo de implementação das chamadas cidades inteligentes. Estar preparado para estas possibilidades pode ser a unica forma de defesa.

Por fim a arquitetura e o desenho urbano terão que aprender a mesclar a esfera virtual em suas propostas de mundo. Precisaremos imaginar, daqui para a frente, designs que contemplem não apenas tijolos e espaços físicos mas também o espaço digital e todo o fluxo (econômico, social, ecológico, etc) decorrente deste.

Tudo isto deverá sempre ocorrer sem perder de vista o objetivo pelo qual as cidades existem: as pessoas. E as pessoas querem estar com outras pessoas, querem experienciar  os espaços de maneira harmônica, querem estar em contato com o vidro mas também com a natureza, elas vivem nas grandes cidades pois almejam agilidade nos processos administrativos e acesso as questões elementares que sustentam a vida.

Portanto, a cidade inteligente só será de fato inteligente, se ao final, sua inteligência for humana.

Anexo

Algumas pontuações relevantes sobre o tema:

1) São Paulo, hoje já conta com um sistema de consulta a respeito da gestão urbana. Vale a pena conferir, o endereço é: https://gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br

Conhece algum outro exemplo de processo cidade inteligente acontecendo? Deixe nos comentários para inserir-mos aqui.


Bibliografia

  1. Vallianatos, M. 2015, 'Uncovering the Early History of “Big Data” and the “Smart City” in Los Angeles', Blog Article, Boom California, visto em 8 de Janeiro de 2021, < https://boomcalifornia.org/2015/06/16/uncovering-the-early-history-of-big-data-and-the-smart-city-in-la/ > ↩︎
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Henrique Andrade

Arquiteto e Urbanista de formação, designer e programador por insistência. Acredito que a tecnologia tem o poder de revolucionar a sociedade para o bem e para o mal, a depender de como a utilizamos.

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